
CAMONDIANDO 500
Ardência de séculos nos abrasa na centúria XXI, a cada vez que velejamos sobre os versos de Camões. Velejamos. Versejamos.
Enquanto Natércia, dama da corte, perdura na mente do poeta lusitano, eu mesmo busco minha Galenisea, não por já a ter encontrado e a conhecido em corações e corpos ardentes, mas, por ter-me distanciado deste amor. Eu aqui e ela por lá em sua cidade de águas barrentas, enquanto calendas marcianas de 2024 me pegam de chofre no calor do final de verão.
Quinhentos anos da obra poética - desde as naus lusitanas cruzando os mares nunca d’antes navegados, até os poemas que cruzam os tempos – aprisionam o amor; é o produto que os poemas e sonetos do bardo luso nos grudam na memória e na intenção. Por que não servir à Galenisea como à Natércia, conquistadoras e vencedoras, vencendo-as em intensidade e desejo, retendo-as nos braços? E, como serão sutileza e suavidade que nos saem da alma que arde sem se ver, enquanto a amada está em paragens apartadas de nós?
É, por acaso, ter com quem nos mata lealdade?
Cinco séculos de desejos não são poucos, nem de séculos, nem de desejos. E tal intensidade nos faz não querer, pois o coração se queima e se mais quisermos queimar, mais intensa será a paixão... e nos tornaremos solitários entre as gentes do mundo... Luís Vaz gritando Natércia aos quatro cantos, mergulhado no oceano, náufrago em amor e na guerra, vendo mais com um olho do que nós, mortais comuns, com os dois, conseguimos ver. Salva-se Camões, pois seu contentamento o leva a viver. A amada no pensamento e as terras lusitanas por escrever. Mesmo que se perca na vida, no amor, na literatura, sabendo que perder-se é ganhar, mesmo que Alcácer-Kebir seja posição já perdida. Perdido Dom Sebastião.
Desde 1572, Luís Vaz de Camões abre o leque da Lusitânia alma para cobrir os séculos vindouros com poesia intensa e a profecia de que os oceanos são intermináveis e se desdobram sobre a face da terra. Não fosse OS LUSÍADAS, o que abraça e nos acalenta são poemas de amor intenso e aura desdobrada. Revela-nos algo que se queima sempre, porém, invisível.
Eu, como autor, voo na perseguição à adorada Galenisea, mimetizando o poeta luso, vejo que minha ferida torna-se intensa, doída e penetrante, porém, difícil de cercar-lhe os limites da sensibilidade. Quando me olho, me vejo sem qualquer contentamento, apesar de saber-me amado e querido. Dor desatinada que anestesia reação outra que não seja a de repetir o jogo de corpos no chão do camarim e abrir a ferida.
Rimas, teatro, prosa, são legados que alimentam a literatura do mundo. Certamente Camões é fonte de correntes literárias outras e mesmo fonte do longínquo romantismo que ainda viria.
Alguns quilômetros me separam da pinta que flutua sobre o seio de Galenisea.
A inspiração camoniana é monumental e épica, obra transformadora de seres e de poetas, profundamente moderna; navegante de mares lusitanos me faz navegante de um rio de águas turbulentas que conta outras histórias, imerso em outros desejos e prazeres.
Há uma obra de Dália Dias – “Os Lusíadas, amores ardentes e outros desconcertos” – que nos desassossega, na busca de nossa Natércia própria ou de Galenisea amante ardente e fogosa, para todos os séculos.
Escrito por Coelho de Moraes
Mococa - SP
Publicado em fevereiro de 2026
