
ESPIRAL DO QUE FICA
Há coisas que não vão
— apenas se curvam no tempo.
A infância, por exemplo,
não se perde:
adormece nas gavetas do corpo,
entre um cheiro esquecido
e uma palavra que ainda dói.
Caminho em círculos que não se repetem.
Cada volta é outra,
embora pareça igual.
O chão reconhece meus passos,
mas meus passos já não são os mesmos.
O que fui me observa
do centro invisível da espiral.
Não julga.
Não chama.
Apenas permanece.
Aprendi que o tempo
não é linha nem queda:
é retorno com mudança,
é ir e vir sem mapa,
é a coragem de tocar o passado
sem querer morá-lo outra vez.
Carrego ausências
como quem carrega sementes.
Algumas germinam silêncio,
outras, memória.
Nenhuma nasce igual ao que foi.
Se ainda escrevo,
é porque girar também é resistir.
Porque existir é aceitar o movimento
— mesmo quando dói,
mesmo quando cansa.
No fim, descubro:
não sou o centro,
não sou a borda,
sou o gesto contínuo
de seguir.
E isso,
estranhamente,
fica.
Escrito por Daniel Cachinhos
Camacan - BA
Publicado em fevereiro de 2026
