
O PRESENTE QUE A FOME DEU
Fernanda põe a mão nas costas, que arde até os ossos. Mas ela se curva outra vez, ignorando tudo, para catar mais uma lata. Tira a tampa. Amassa o metal. E joga dentro da sacola. Toda hora. Todo dia. As mesmas mil latinhas. A mesma dor teimando nela. Mas sorri para cada uma delas, como se o saco de lixo fosse de moedas. Devem dar pelo menos uns… cem reais. É o suficiente. Vai ser o melhor Natal de todos! Isso! Consegui!
***
Fernanda chega em um beco sem saída. Olha para cima. A lua cheia é a única coisa que brilha em tanta escuridão. Anda devagar, até um barraco cheio de tralha. Roupas estendidas em um fio balançam com a ventania. Por que tem isso tudo aqui? Começa a tirar. Uma por uma. Até que sua visão escurece e dá um aperto no coração. Ela para e se apoia na parede, respirando fundo. As mãos tremem muito. Seus olhos vão para o lado.
Pessoas passam na rua sorrindo, cheias de sacolas grandes, que ela nunca poderia tocar. Nenhuma delas ajudaria. Muito menos entenderia. Ver elas não muda nada. Mas, se ao menos me vissem… só por um segundo. Ela suspira, continuando a caminhar.
Chegando no barraco, abre a cortina de lençol. Lá dentro, Lucas e Gabriel dormem de boca aberta. Seus pezinhos estão para fora. Fernanda dobra as roupas, guardando ao lado. Depois, cobre os meninos com um pano velho.
Lucas abre os olhos aos poucos.
— Mamãim… bom dia.
— É de noite, peste.
— Hehe. Eu sei. – Ele abraça o pescoço dela. — Feliz Natal, mamãim.
— Feliz Natal, meu amor.
Fernanda dá vários beijinhos na testa dele. Depois, faz o mesmo com o mais novo, que continua a roncar muito. O barulhinho dele relaxa seus ombros. Nada no mundo parece mais lindo que isso.
De repente, uma lágrima escorre em seu queixo, caindo na bochecha quente do pequeno Gabriel.
Lucas aperta sua blusa.
— Mamãim, que foi?
— Nada, meu filho. É só que…
A garganta dela fecha. De imediato, ela o abraça. Bem forte. Forte o suficiente para protegê-lo do mundo inteiro.
— Levaram tudo, meu filho… – A voz dela falha. — Não consegui comprar nada. Me desculpa.
Ela afasta para ver os seus olhos. Ele sorri, até mais que as pessoas da rua.
— Tá tudo bem! Espera.
Lucas vai até o fundo do barraco, tirando várias tralhas. Pega algo. Uma caixa. E ergue para ela.
— Feliz Natal!
Fernanda abre muito os olhos, ficando de boca aberta.
— Que isso? De onde pegou?
— Um casal jogou no lixo. Eu e Gabriel fomo pegar pra nóis comê junto.
Ela começa a chorar de vez, vendo o panetone amassado. E olha para o lado. Então, as roupas no fio…
Lucas sacode o pequeno Gabriel.
— Bora comê! Mamãim chegou.
— Eba! – A voz rouca dele fica baixinha enquanto acorda. — Fe-Feliz Natal, mainha.
Os dois pulam, com gritos e muita alegria. O barraco chega a se mexer. Fernanda não consegue sequer conter o sorriso.
— Eu amo tanto vocês, minhas pestes mais lindas do mundo. Eu num sei nem o que dizer.
— Não precisa dizer, mamãim. – Dá um beijão na testa dela — Também te amo.
Gabriel cruza os braços na barriga.
— Mainhaaa, tô com fome.
— Então, vamos comer.
Ela abre com cuidado a caixa, mais valiosa que uma sacola de moedas. E divide para cada um. Mesmo que acabe rápido, esse panetone é o bastante.
Em uma noite gelada, com um abraço quentinho, nenhuma dor parece existir no melhor Natal de todos.
Escrito por Kan Yuei
São Luís - MA
Publicado em fevereiro de 2026
