
RESPOSTOFOBIA
Rubens era um sujeito do bem. Alto, cabelo curtinho, sem barba, óculos de grau tradicionais e roupas sociais. Organizado, disciplinado, se dava bem com todos na repartição. Era reservado, caseiro. Ninguém nunca o vira exaltado. No trabalho, estava sempre disposto a ajudar quem precisasse sem esperar nada em troca. Mas padecia de um estranho e raro mal: era averso a dar respostas. Não se sabia ao certo por quê. Se por indecisão, vergonha ou desinteresse; o fato é que arrancar dele qualquer retorno era bem difícil, beirava o impossível.
Vira e mexe, o assunto por lá era o Rubens. O pessoal do escritório especulava quando teria começado essa esquisitice. Silveira brincava ter sido na pré-escola, quando a mãe do então pequeno Rubinho o questionara sobre ele preferir uma lancheira do Hulk ou do Homem-Aranha. Ele, sem ter certeza se queria ser forte ou ágil, não respondeu. Pelo contrário, surtou. Otávio apostava que fora por volta dos dez anos, quando teria sido convidado por duas amiguinhas para a quadrilha na festa junina do colégio. Indeciso entre a loira e morena, calou-se e nunca mais dançou. Maria Antônia colocava as fichas na hipótese de o Rubens ter sido normal até a adolescência; mas, na dúvida entre optar pelo vestibular de Direito ou Medicina, parou no ensino médio. Samanta cravava: era culpa do signo, devia ser libriano.
O que todos sabiam é que o colega tivera três merecidas oportunidades de promoção. E sequer respondera. Na primeira, Ricardo, o diretor regional, ficou magoado com o que considerou um pouco caso de um funcionário tão estimável, mas foi alertado pela Fatinha, a secretária, de que o Rubens era assim mesmo. Não respondia se iria à festa de fim de ano, não colocava o nome na lista da vaquinha para o presente de casamento dos colegas. Mas sempre ia ao restaurante marcado para a confraternização da repartição e, geralmente, comprava ele próprio um presente para o casal de noivos. Na segunda oportunidade de ascensão profissional, o diretor Ricardo entendeu o que estava acontecendo. E na terceira e última, teve certeza de que o caso do funcionário era mesmo grave. Decidiu parar de esperar alguma coisa do rapaz.
O office boy Juninho, um dia, voltou do banco contando que tinha ouvido uma história sobre o Rubens ter sido noivo de uma tal Elisa antes de trabalhar com eles. Ficou sabendo que a moça, depois de anos de espera para o casório, decidiu adiantar as coisas. Marcou um jantar em um restaurante chique, comprou as alianças e o pediu em casamento. Ele suou frio, quase engasgou, postergou a resposta e nunca mais a procurou. Nem atendeu ao telefone, não respondeu às mensagens. Nem aos e-mails. Nem namorou de novo, pelo que sabiam.
De vez em quando, alguém ligava para a repartição para saber se ele estava bem. No meio do ano, Rubens fez um curso de reciclagem com funcionários de toda a regional. O pessoal se amarrou no jeitão dele e tentou manter contato. Ele, claro, não respondeu nenhum e-mail. E lá ia outra vez a secretária Fatinha explicar que estava tudo certo sim, ele provavelmente lera os e-mails, mas não ia mesmo se manifestar. Não, ele não ficou chateado com nada que ninguém falara, era a forma como o homem vivia a vida. Outra ligação, de um antigo amigo de escola. Sim, o Rubens ainda trabalha aqui e pode confirmar o nome dele para o reencontro do fim de semana. Por minha conta. Ele vai, sim.
Depois de anos de convivência, ainda era um tabu para qualquer colega tocar no assunto com o Rubens. Ele desconversava, inventava um compromisso e saía pela tangente. Sugeriram que ele conversasse com um psicólogo, mas ele não respondeu à proposta. E ficou por isso mesmo.
O tempo passou e, quando ele se aposentou, o pessoal sentiu falta do altão esquisito que não respondia a ninguém. Com mais de 90 anos, Seu Rubens hoje mora sozinho em um apartamento antigo no centro. Não tem celular, vive quase incomunicável.
A saúde está frágil. O velhinho já teve dois derrames e uma parada cardíaca. Sofreu um acidente de carro e caiu no chão da cozinha. A Morte já o chamou outras três vezes. Mas ele não responde.
Escrito por Ulisses Vasconcellos
Fortaleza - CE
Publicado em fevereiro de 2026
